Sábado, 1 de Agosto de 2009

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1ª Edição - ano I - Agosto/2009

 

Olá, amigos! Bem-vindos!

 
Esperamos não entediá-los com nossas maquinações sem fim, e nem com a nossa insistente busca de não falarmos sozinhos. Queremos apenas mostrar a retomada da produção do Grupo Interseção, que traz em sua bagagem uma trajetória de mais de 10 anos de altos e baixos, mas com a mesma fidelidade de sempre à reflexão estética do cotidiano.
 
Boa leitura!

 

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O Fantasma

 

Recebi minha sentença e caminhei em silêncio, na direção daqueles que vivem onde só há choro e ranger de dentes. Minha sombra funesta e desencarnada escorria pelos vãos da cidade. Com a cabeça afundada no prato, eu devorava meus pensamentos como a última refeição de um condenado e via os rostos dos que ainda se consideravam vivos, presos às correntes do tempo.

 
Vaguei pelos lugares onde outrora estive a caminhar. Assombrando rostos que poderiam ser meus espelhos da manhã, meus canteiros de sonhos. Criatura sombria, eu me movia com a suavidade de um ausente, que nada toca, em nada interfere, apenas uma cogitação que passa, como um vento sinistro, um arrepio, um mal pressentimento. Apenas os gatos me viam com seus olhos asmáticos a me chamarem de irmão do mistério.
 
Vi que o mundo na verdade já havia acabado há muito tempo. E que estávamos a caminhar sobre escombros, como se eles fossem uma pavimentação nova e perfeita. Temos vivido há tempos no simulacro da existência. As prostitutas se vendem nos orelhões e os meus amigos estão mortos também.
 
À noite a cidade me engole, porque sou apenas um vulto agora. Sou apenas o som de uma vogal, sem corpo que me pese. Mas ainda assim meu coração dispara. Ele ainda se lembra de como é estar vivo e se agita ao divisar os portais do lamaçal das tormentas. Lá, toda luz é refletida, toda imagem se constrói de fragmentos disformes. O cheiro de urina amalgama todas as partes do ambiente. E não é a toa que os tons rubros e rosas dominem as visões, pois eles vêm do sangue escorrido desde sempre. Desde a primeira morte.
 
Peitos, bundas, sirenes, vermelho, medo... O inferno de sons em sintonia com o espaço em volta. Mas mesmo longe dali, sei que continuaria a me atormentar. A curiosidade ainda me faz andar. Mas ainda tenho medo, muito medo. Tensão, tontura, arrependimento, lucidez, e um clamor febril por salvação, à espera do anjo voador de asas pneumáticas e coração de taxímetro.
 
Mais do que nunca eu quero o quadro branco de Malevitch para me esvaziar de todo e qualquer significado. Porque não há saídas, não há solução. E eu, que pensava ser o instrumento da mudança, morri. E agora apenas assombro a mim mesmo e me pergunto: o que vou fazer agora, diante da medonha eternidade?
 
(Marcelo Souza - 2007)
 

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Quadro Anônimo, ou Cenas Cotidianas, ou As Últimas Notícias.
 
 
São 23:10. Volto pra casa dentro de uma van.

Pintaram um quadro na calçada. É um poema.

(sou apenas um descritor, méritos ao devido artista desconhecido)

Há uma pequena multidão espalhada comentando os traços, os detalhes. Alguns, provavelmente, levantaram das camas, saíram de suas casas para verificar a obra. O Louvre, o MAM, o CCBB são aqui na esquina.

 

O artista trabalhou com cores fortes. Muito vermelho e dramaticidade. Há silêncio diante do quadro. Será surrealista? Será figurativista? Impressionista? Nebuloso? Como toda obra à frente do seu tempo é tudo isso e realista.

O motorista da van também se interessa por esta arte. Diminui a velocidade. Eu também olho. Que talento! Minhas pernas doem. Meu coração treme. Ele pintou uma ferida. Que talento!

 

Daqui de onde vejo, é um bolo humano embrulhado na noite. Não está claro. Que talento!

Ele escreveu um crime com dois corpos e desenhou rios e lagos vermelhos saindo dos corpos. Ele usou os transeuntes. É arte moderna. O desenho está na cruz das ruas. Os observadores vão espalhar seu talento no dia seguinte.

Ele colocou os corpos como peças de encaixe perfeito. Um dos corpos deitado sobre o colo do outro que se curva. Imóveis. Um protegendo, aquecendo, humano, o outro divinizado, frágil, efêmero.

 

O corpo deitado tem uma das mãos estendida sobre a calçada, com os dedos pra cima, como uma raiz revolucionária. Ela mergulha no rio vermelho cuja nascente está na floresta de cabelos. Jovem a floresta, o corpo e a mão deitados.

Há uma história pra ser lida neste rio. Mas, o artista deixou que levássemos nossa imaginação pra casa.

 

Porém, depois que descemos da van, já no portão de casa, é impossível subir os poucos degraus da vida.

 

(Máximo Heleno - 18/05/2005)

 

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Poema

 

 

 

Dentro de mim já não ouço mais as marés

 

Ou a velocidade incomum dos almoços de domingo

Ou o muro sem nuvens do vizinho

Ou o tráfego cheio de consumo das sextas-feiras

Ou qualquer outra metáfora inventada, pouco eficaz e canastrona.

 

O que me bate a cara agora é a certeza de que a vida não é eterna

É que a água suja-se, sim, quando derramada

É que o álcool me força a uma gravitação menos exata

E que qualquer flor cheia de resina

Terá seu próprio sistema de atração.

 

E que mais fácil é ignorar o filho que não tenho

Que o filho assassinado

O trabalho que não vinga

Que a fila que não acaba

Que esse poema que não morre

Que o que sustenta o amor não é a cama

Nem os suores

Nem nada disso que estou dizendo.

 

O que me morde a carne agora

Está em qualquer praça, em qualquer homem

Nada tem de especial ou de miraculoso

É uma coisa comum, praticável.

E que se espalha

Metástase mensagem.

 

(Luiz França - 2008)

 

 

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Humus

(Marcelo Souza - 2007)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

publicado por Interseção às 23:42

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2 comentários:
De Toninho Moura a 5 de Agosto de 2009 às 12:46
Lemos, gostamos e já somos fãs!
Como diria nosso amigo Spock "Longa vida e prosperidade" para vocês.
Braços!
Toninho Moura
Capitão Ócio

Vamos linkar lá no "Dicas..."
De Interseção a 7 de Agosto de 2009 às 16:02
Valeu, Toninho!
Nós do Interseção ficamos felizes com a sua visita e com as palavras de motivação!
Grande abraço!
Marcelo

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