Segunda-feira, 7 de Setembro de 2009

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2ª Edição - ano I - Setembro/2009

 

Olá, amigos! Bem-vindos novamente!

 

Nesta segunda edição do blog do Interseção, vocês poderão conferir novos textos e novas artes, além de imagens e notícias sobre as atividades extra-muros do grupo.

 
Boa leitura!

 

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Joaquim

 

 

Na volta para casa, um menino sentou-se ao meu lado no ônibus. Puxou assunto comigo e não parava de falar, o que só fazia aumentar a minha dor de cabeça. Vestia um uniforme de escola pública e carregava uma mochila que parecia um tanto pesada para o seu corpinho magro.

 
Virei a cabeça para a janela e fingi não ouvi-lo. Mas ele fazia questão de me relatar, com riqueza de detalhes, como havia sido o seu dia na escola. O ônibus ia ficando cada vez mais cheio a cada ponto e eu só pensava em chegar logo em casa.
 
De repente, o menino parou de falar e, num movimento muito rápido, saltou do ônibus. Olhei para o lado e vi a mochila esquecida no banco. Cheguei a esboçar uma tentativa de chamá-lo mas ele já ia dobrando a esquina. “Deixa pra lá, não é problema meu”, pensei. Eu poderia até deixar a mochila com o motorista do ônibus, que saberia o que fazer com ela. Afinal, as pessoas esquecem muitas coisas nos ônibus: seus guarda-chuvas, seus objetos, seus documentos, suas identidades...
 
Não sei exatamente por quê, mas senti um remorso instantâneo. Senti-me na obrigação de ir atrás do menino e entregar-lhe a mochila. Talvez por ter me lembrado da surra que levei da minha mãe quando era criança e perdi meu par de tênis novo, ao tirá-los para subir em árvores depois da escola.
 
Desci do ônibus no ponto seguinte, mais ou menos a dois quarteirões de onde ele havia saltado. Apertei o passo, a mochila estava realmente pesada. O que haveria ali dentro? Pensei em olhar, mas meus escrúpulos éticos me impediram. Eu o havia perdido de vista e comecei a me arrepender de ter descido do ônibus. Disse dois ou três palavrões, esmurrei o ar e continuei andando. Que escolha eu tinha naquela altura?
 
Ignorei meus princípios e vasculhei o interior da mochila a procura de alguma informação que pudesse me levar até o guri. Nem endereço, nem número de telefone ou carteirinha de estudante, nada! A não ser um nome mal escrito num livro: “Joaquim”. Seria o nome dele? Um nome um tanto antigo, sério e pesado para alguém tão pequeno e magrinho carregar.
 
Ele devia morar por aquelas redondezas. Alguém devia conhecê-lo. Entrei numa farmácia e perguntei ao balconista se ele conhecia um menino chamado Joaquim.
 
— O único Joaquim que conheço é aquele ali no meio-fio. E ele já não é um menino há muito tempo.
 
Do outro lado da rua, um velho completamente bêbado e sujo pendia na porta de um botequim. Não, definitivamente não era ele quem eu procurava. Mas aquele homem também se chamava Joaquim e também já havia sido uma criança. O que teria faltado a ele? Amor? Compreensão? Sorte? Uma família que o amasse? Uma mochila cheia de sonhos?
 
Continuei andando e virei numa esquina que dava para uma rua mais movimentada. Carros, ônibus, caminhões, letreiros, sinais, buzinas, lojas ainda abertas e cheias de gente, que compravam coisas antes de irem para suas casas. A mochila ficava cada vez mais pesada e minha cabeça voltara a doer. De repente, uma freada brusca e dois faróis que me cegaram momentaneamente. Era um táxi. O motorista saltou muito nervoso:
 
— Oh! Meu camarada! Assim você morre! Tá tudo bem?
 
A dor de cabeça e o cansaço, além do peso da mochila e dos meus pensamentos, me distraíram tanto que, sem perceber, eu estava no meio da rua.
 
— Joaquim! Procuro pelo Joaquim. Falei num tom meio delirante.
 
— Como é que sabe meu nome? O senhor me conhece? Perguntou espantado o taxista.
 
— Deixa pra lá. Eu disse.
 
Fui me afastando lentamente e em silêncio, pois eu já não tinha mais forças para explicar nada a ninguém. O taxista foi até simpático comigo dizendo para eu ser mais cuidadoso e, antes de ir embora, disse até que me daria uma carona se já não estivesse transportando um passageiro. Agradeci e continuei minha jornada que, naquele momento, já era questão de honra.
 
Mais alguns quarteirões à frente e passei pela porta de um cemitério. Um grupo de pessoas chorava dentro de uma capela na qual se velava um corpo. O caixão era pequeno, talvez fosse uma criança. Eu nem conhecia aquelas pessoas mas, sem perceber, me encaminhei até elas e parei na porta da capela. Era realmente o corpo de uma criança, mais ou menos da idade do Joaquim. Tive uma sensação estranha na hora, um misto de tristeza e alívio. É claro que é muito triste ver uma criança partir, sem ter tido a chance de viver, de sonhar. Mas ainda bem que não era ele. O menino que eu buscava ainda estava vivo e andando por aí. Sabe-se lá onde, mas vivo!
 
Havia ficado tarde e percebi que não adiantaria continuar minha busca sozinho. No dia seguinte eu ligaria para o trabalho dando uma desculpa qualquer e pediria ajuda a alguém para conseguir devolver a mochila ao seu dono legítimo. Eu estava muito cansado e ainda teria de contar a história toda à minha mulher.
 
Quando cheguei em casa ela me perguntou:
 
— O que cê tá fazendo com a mochila do Joaquim?
 
E antes que eu pudesse falar qualquer coisa, ela continuou:
 
— Amor, vê se não faz muito barulho, porque eu acabei de botá-lo pra dormir.
 
 
Marcelo Souza  2008

 

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Manifesto pktrouxniano

                    Para Simara Barreto Dias, minha namorada,

                    e para o meu compadre Marcelo Souza, pktroux de carne e osso.

 

 

O pktroux mora em Pasárgada.

O pktroux crê nas coisas e duvida em paz.
 
E o pktroux ensina enquanto descobre:
 
"O 5 é o centro geométrico entre o 0 e o 10,
Mas, não é o centro magnético.
Porque a bússola, ainda que no sul, aponta o norte.
É necessário, então, sempre caminhar para o 8, o 9..."
 
O pktroux vai de Niterói ao Leblon levar
Um jarro de flores para o Amor.
O pktroux sabe da seca, mas mantém o traço infantil
No desenho da terra.
 
O pktroux leva Pasárgada ao mundo.
 
"Ele me reflete e este reflexo me ensina tanto quanto ele.
‘Me ensina a mim’ mais do que ele e a ele.
O espelho não sabe de mim, mas me mostra,
E nele, vendo-me-aprendo."
 
O pktroux tem “a cabeça nas nuvens...”.
O pktroux acredita na quimera e na utopia, e contesta em paz.
 
O pktroux é positivo e respeita o benefício das bobagens.
Numa mistura de príncipe e bobo da corte,
O pktroux afirma o desenho de um sábio de Pasárgada.
 
Porque a mulher perfeita tem um jeito de sorrir
Que é quase um sorri na gente.
Porque ela tem uma ternura que ausculta o nosso coração
No coração do mundo.”
 
O pktroux passeia em meio à tempestade e chora, em paz.
Mas é que em Pasárgada, quando o pktroux chora
É quase como para o Céu lavar a terra.
 
O pktroux faz coisas, o pktroux faz projetos.
O pktroux crê horas e na eternidade.
 
O Pktroux-Assunção-Pasárgada
Cheio de areia da praia.
 
 
Máximo Heleno  07/08/2009
 

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Meu pulso veste a entonação de tua carne...

 

 

Meu pulso veste a entonação de tua carne.

Meu dorso tem o quente de tua boca improvável.

Me perturba o teu revés e é notório

Que eu ame a tua incongruência e teu desatino.

 

O que eu quero é menor, só o que me importa,

É atar-me a esta cintura tua que me envolve.

Ouvir o sopro vago do meu nome, sendo dito,

Por uma língua úmida, macia e sentenciosa.

 

Eu finco no silêncio rigoroso e áspero

Do que aguarda o sinal distinto e claro

Daquela entregue aos meus braços.

 

Senhora, e menina, e mulher que implora,

Num olhar que é todo ordem

É todo anseio e que tudo pode.

 

 

Luiz França  2007/09

 

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Estivemos lá!

 

Na última semana do mês de Agosto o Grupo Interseção, representado por Marcelo Souza, participou do evento/intervenção Deslocamentos - Nilópolis 2009, promovido pelo coletivo de artistas Imaginário Periférico, no Teatro Municipal Jornalista Tim Lopes, no município de Nilópolis - Baixada Fluminense. Na ocasião, artistas de várias partes do estado e do próprio município estiveram presentes com suas obras, que incluíam: desenhos, pinturas, instalações, fotografias, objetos, poesia, teatro, música, performances etc. Veja abaixo algumas imagens do evento.

 

O espaço cultural

 

Público presente

 

Escultura em isopor

 

Trabalhos de Marcelo Souza expostos no evento

 

Instalações

 

Grafite

 

Instalação com caixas de papelão

 

Pintor nilopolitano

 

Poeta nilopolitano

 

Coral da cidade 

publicado por Interseção às 20:07

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2 comentários:
De Toninho Moura a 9 de Setembro de 2009 às 00:20
Muito legal! Mas, tem que ser mensal?
De Interseção a 9 de Setembro de 2009 às 05:26
Meu caro amigo, Toninho!

Infelizmente, por enquanto, o blog terá de ter suas atualizações feitas mensalmente, devido à nossa falta de tempo (e de uma certa organização também). Mas esperamos que, em breve, possamos diminuir o intervalo entre uma edição e outra.

Aproveito a oportunidade para, mais uma vez, te agradecer pela visita e pelo comentário, sempre simpático.

Um grande abraço!
Marcelo

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