Sábado, 10 de Outubro de 2009

...

3ª Edição - ano I - Outubro/2009

 

Olá, amigos! Bem-vindos mais um vez!

 

Nesta terceira edição, além da nossa própria produção de textos e imagens, o blog do grupo Interseção traz também alguns trabalhos da artista plástica Sheila Mancebo, que vem participando de importantes exposições de arte contemporânea no Rio de Janeiro.

 

Boa leitura!
 
__________________________________________________________________________
 

 

Duas vidas

 

 

Eu precisaria ter duas vidas:

uma para me perder,
e outra para te achar.
Duas vidas para a vida se tornar completa.
 
Eu precisaria ter duas vidas:
uma para cometer todos os crimes, todos os erros;
e outra para cumprir as penas ao teu lado.
 
Uma vida para gastar no vício, no pecado.
E outra para rezar contigo as contrições.
 
Uma vida para trabalhar, estudar, construir...
E outra apenas para vadiar contigo.
 
Eu precisaria ter duas vidas:
uma para conhecer o mundo, viajar até as estrelas;
e outra para descobrir tuas vielas, teus caminhos.
 
Uma vida inteira de andanças, sedes e angústias.
E outra de prazeres infinitos em ti.
 
Eu precisaria ter duas vidas:
uma para ter todas as doenças, pestes e perigos;
e outra para ser salvo por ti.
 
Uma vida completamente desperdiçada.
E outra completamente entregue a ti.
 
Eu precisaria ter apenas uma vida.
Com você.
 
 
[  Marcelo Souza  ]
 
_________________________________________________________________________
 
 
 João - João
 


Quantas vezes, tua cabeça de papel na minha mão?
Quantas vezes, joão-de-pedra, joão-de-barro, joão-de-chão?
Chão de Sevilha, recifense de chão?
Chão de Itabira, Cordisburgo de chão?
Chão pantaneiro, do Rio e mineiro de chão?

Oh, João, eu não sei nada, sou só desconfiado
e tenho só o pecado de amar um irmão -
que é o próprio diabo e é são,
que é a própria correnteza e a mansidão.

Um irmão que é rio e é chão
que corta Minas e o corta o sertão
que leva a Pasárgada, que sai de tua mão -
e faz um barulho de trem.

Porque, João, é bom que se diga
a toda mão amiga
que toda flor fura o chão, que toda flor fura a vida
que toda flor é contramão.
Porque toda flor fura o céu e toda flor fura o chão.

Porque toda flor fura a fraqueza, a exatidão.

Porque, João, toda flor é um ventre e é compaixão.

João, João, mesmo que sejas Manoel, Carlos, Cecília,
o teu nome é João, que é o nome da espécie que fura o chão.
Mesmo que sejas Augusto, Jorge ou Raquel,
o teu nome é João, que é o nome da espécie que irriga o chão.
Mesmo que sejas Ferrera, Adélia, Gonçalves és João,
que é o nome dessa espécie que já é a nação.

És João e tua cabeça de papel será sempre servida como pão,
como hóstia, como prêmio, como a anunciação.

Porque João é o nome da flor que irriga o chão.

 

 

[  Máximo Heleno  ]

 

_________________________________________________________________________ _____
 
 
Um conto
 
 
À pele clara vicejavam silêncio, macios ao toque ou sopro. Iridescente, a luz loura de seus pêlos chamava – um convite pouco discreto, mas suscitando sempre a dúvida. Sim. Não.Ou. Ele queria ficar ali indefinidamente – via na lua da tarde a lua da noite insurgir vaga e argentina. Respira, palimpsesto de si mesmo arqueja levemente o corpo, olha-a por cima e menos sussurra que pensa. Falar o quê, melhor: por quê? Não se mova, deixa pousar o tempo sobre, esquece o que eu disse e o que eu não disse, assim, levanta o teu abdômen, relaxa, respira... – a noite vem para ambos, o controle é dele e pensa: Estou perdido, não posso transparecer, e... ela não diz?
 
Lembrou das contas feitas no dia e as pedras que teve que quebrar. Pessoas e ruínas... no que se aparentam? conhecê-la foi fácil, chamá-la, confuso, detê-la, agradável, retê-la, visceral. Sua fé o rendera e agora queimava uma brasa por dentro. Ele lembrou vagamente de uma canção que falava daquilo. Sentiu-se ridículo e teve uma certeza mais ridícula ainda:  amava-a.
 
 
[  Luiz França  ]
 
____________________________________________________________________
 
 
Pequeno Inventário
 

 

Minha dor de existir
Minha calma perdida
Minha história não começada
Minha oração sem resposta
 
Respostas não perguntadas
Invejas desnecessárias
 
Minha escova de dente
Minha riqueza sem uso
Meu estatuto furado
Meus sapatos parados
 
Minha espera
Minha tosse
Minha espada sangrada
Minha patetice
 
 
[  Marcelo Souza  ]
 
__________________________________________________________________
 
 
 

publicado por Interseção às 18:55

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13 comentários:
De maximo a 13 de Outubro de 2009 às 03:30
sheila,
bom quadro.
gostamos (luiz e eu) da janelas-pipas com rabiolas de espinhas de peixe.
parabéns.
máximo
De Veronica a 13 de Outubro de 2009 às 18:17
Adorei "Duas vidas"

Muitas vezes desejamos duas ou mais vidas, quando se soubessemos como, apenas uma bastaría e sobraría... mas para isso é necessário saber.

Alguém aí sabe?

Parabéns Marcelo.
De Interseção a 16 de Outubro de 2009 às 19:06
Olá, Veronica!
Você tem razão. Não seriam necessárias duas ou mais vidas, se soubéssemos como viver bem a que temos. E como não sabemos, nos resta ao menos o consolo de um dia podermos aprender.
Obrigado pela visita e pelo comentário.
Um grande abraço!
Marcelo
De Luzia de Maria a 13 de Outubro de 2009 às 21:51
Li todos os textos e parabenizo os autores.
Gostei muito, tando do poema João-João, do Máximo Heleno, como também da ilustração do mesmo, feita pelo Marcelo.
Gostei também do 1° poema do Marcelo, "Duas vidas"
Um abração para todo s e especialmnte para o Marcelo.
Luzia de Maria
De Interseção a 16 de Outubro de 2009 às 18:53
Oi, Luzia!
É uma grande honra e alegria receber sua visita aqui no nosso blog. Muito obrigado pelos elogios e pela boa vontade em fazer cometários tão gentis.
Um grande abraço.
Marcelo
De josilene a 15 de Outubro de 2009 às 23:01
Parabéns, grupo Interseção. A chegada da nova artista abrilhantou a página.
Continuo fã do Marcelo Souza. Amei as "propostas inteligentes"
Continuem nessa marcha.
De Interseção a 16 de Outubro de 2009 às 18:56
Josi, minha querida amiga!
Que bom receber de novo a sua visita!
É sempre um prazer ler seus comentários de incentivo. Muito obrigado!
Um grande beijo!
Marcelo
De Toninho Moura a 19 de Outubro de 2009 às 01:09
Que legal! Vida longa ao Interseção!

Só acho um porre os números e as letras para preencher!
De Interseção a 19 de Outubro de 2009 às 16:06
Fala, meu caro Toninho!

Mais uma vez te escrevo pra agradecer pela força que você tem nos dado desde sempre.

Realmente é muito chato esse lance de preencher os campos com aquelas letrinhas. Como nosso "webmaster" é um pouco amador ainda não fizemos certas coisas que precisam ser feitas para melhorarmos isso. Mas vamos providenciar melhorias nessa acessibilidade dos comentários.

Grande abraço!
Marcelo
De Veronica a 20 de Outubro de 2009 às 13:20
Max, Max, Max....

Certo dia você disse
Poemas não escrever
O que diria se acreditasse
Muito bem os fazer?

Não sei.
Não vou comentar.

Mas João-João
Ei-la nesta página
Uma bela poesia
Por você assinada!

Parabéns!
De Gisele Soares a 25 de Outubro de 2009 às 01:14
Olá amigos,
Parabéns a todos (Sheila inclusive).
Max, conheço seus "traços" e eles continuam muito bons.
Luiz, acho que é primeira vez que te leio. É bom poder vê-lo além das ironias (divertidas, por sinal).
Marcelo, não nos vemos há... uns 10 anos?

Abraços!
De Interseção a 25 de Outubro de 2009 às 16:49
Oi, Gisele! Tudo bom?
Realmente tem muito tempo que não nos vemos. Acho que uns...vinte anos. rsrs.
Muito obrigado pela visita e pelos comentários.
Abração!
De Máximo Heleno a 2 de Novembro de 2009 às 19:47
Toninho, Gi, Luiza e Josi,

muito obrigado pela visita ao nosso ponto de Interseção e pelos comentários.

Verônica,
vai ver que a poesia se faz e eu, pretensioso, penso que eu a faça - rs.

Um abração e voltem mais vezes.

Máximo

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