Segunda-feira, 30 de Novembro de 2009

...

 4ª Edição - ano I - Novembro/2009

 

Olá, amigos! Sejam bem-vindos mais um vez!

 

Apesar do atraso, aqui estamos mais uma vez com a nossa insistência em transformar esse mundo através da arte. Ou, se não pudermos mudá-lo, pelo menos podemos chorar por suas mazelas e rezar para que ele se torne melhor. E por falar em choro, nesta edição temos os textos resultantes da nossa oficina literária cujo tema foi: "Congresso de lágrimas". Nela tivemos a participação de grandes convidados como o nosso amigo blogueiro Toninho Moura e o premiado escritor da nova geração Mariel Reis. Eperamos que gostem. Boa leitura!

 

__________________________________________________________________________

 

 

 Congresso de lágrimas  (por Marcelo Souza)

 

 

 

Um dia, reuniram-se numa só glândula lacrimal todas as minhas lágrimas. Aquelas dos momentos tristes e trágicos, as dos momentos felizes e ternos e até mesmo aquelas que seriam dedicadas ao desperdício involuntário por causa de um cisco ou algo semelhante..
 
Na pauta da sessão, um impasse ético: um grave acontecimento provocara uma grande demanda de lágrimas, chegando ao limite do equilíbrio orgânico. Umas lágrimas defendiam seus pontos de vista lembrando sua função primordial de serem as porta-vozes do meu mundo interior e que não poderiam ser contidas. Outras argumentavam que, se mais uma delas escorresse, isso fatalmente causaria a desidratação do corpo e a morte.
 
Finalmente elas me consultaram para decidir a questão. Fiquei com o primeiro grupo.
 
__________________________________________________________________________

 

 

Congresso de lágrimas  (por Mariel Reis)

 

 

 

O velhinho patriota do apartamento 305 estende a bandeira brasileira do lado de fora da janela. Todos os dias ao acordar, eu ouço todo o hino nacional, entoado com respeito e devoção, impressionado pela capacidade da memória do velhinho que não erra uma única frase, nem desafina.
 
Quando o encontro no elevador, ele me diz que na escola cantavam todos os dias, que sua afinação vinha desde garoto, que aquilo tinha se incorporado à sua vida, que a única vez em que ficou impedido de cantar o hino foi no exército, porque era corneteiro, mas quando estava no banho, praticava sem parar, fazia jogos mentais com as estrofes, avançava o ritmo ou mudava o andamento para mais lento, como um bolero. Dizia isso com uma expressão de felicidade nos olhos.
 
Do lado de fora do prédio, víamos a bandeira tremulando. Patrioticamente, ele juntava os calcanhares para ficar o mais ereto que conseguisse e fitava com os olhos o além, prestando continência aquele símbolo que amava mais que tudo.
 
– Quando minha mulher era viva não gostava que me dedicasse tanto à rotina de adorar a bandeira, pedia que eu virasse o disco, resolvi aprender os outros hinos e atacava o Hino à Bandeira – “Salve, lindo pendão da esperança/Salve, símbolo augusto da paz!”.
 
“Tio, me dá um trocado”, o menino puxa a manga da minha camisa, vasculho os bolsos, eu despejo na mãozinha estendida umas moedas. O velhinho do 305 sai do transe em que estava, praguejando o país, por estar infestado por esta corja, despejando todo o tipo de palavrão, me conduzindo para um barzinho logo do outro lado da rua.
 
“Não se pode facilitar com esses vagabundos”, resmungou. “Tenho saudade da vadiagem. Esses sacanas estariam tudo vendo o sol nascer quadrado”, emendou.  Uma mulher com uma criança de colo se aproxima. “Moço, pode dar uma ajudinha”. Eu já não tenho mais dinheiro. “Vai arrumar uma roupa para lavar”, atacou o velhinho do 305.
 
Na minha cabeça o hino da bandeira “A grandeza da pátria nos traz”. A mulher vai para outra mesa, a criança enganchada no quadril: a mesma cantilena. Não tenho como deixá-lo falando sozinho, “Está quase na hora do meu trabalho”, interfiro. “Ah, meu rapaz, fique mais um pouco”, o velhinho do apartamento 305 gesticulava, apontando para um lado e para outro, como se estivesse a rever a marcha que tomou o Aterro, pedindo a caça as bruxas, com os olhos faiscando, os braços ressequidos riscando no ar os planos para se acabar de uma vez com a ameaça vermelha. Tudo isso dito com desdém, com menosprezo, indicando os caminhos dos generais.
 
Do outro lado da rua, um grupo de jovens negros amontoados, conversando alto, vestidos com bermudas e camisas de time, tocas enfiadas na cabeça, bandeiras enroladas em pedaços de pau. Uma imagem intranqüila.
 
“Arruaceiros!”, vociferou o velhinho do 305. “Se existisse a lei contra a vadiagem estavam em cana, no xilindró, que é o lugar de todos vocês, seus pés- rapados!”. O dono do barzinho não gostou nada. 
 
Os jovens atravessaram para tomar satisfação, “Que porra é essa, vovô! Que porra é essa!”. Estavam exaltados. “O netinho vai tomar as dores do vovô, vai”, recebi a provocação. “Ele não é meu neto, não preciso dele para dar conta de vadios”. O velhinho parecia ter perdido a razão, subiu na mesa, apoiando-se em seu equilíbrio frágil, brandindo a bengala como uma espada. “Vocês vão tomar no cu!”. A briga estourou.
 
O bando de jovens invadiu o bar, quebrando cadeiras, roubando os fregueses, assaltando o caixa, dando porrada em todos pela frente. O velhinho, derrubado no chão, chutado por  todos os lados, cantava o hino nacional, gritando com as forças que lhe sobravam. Esmurrado, com um dos olhos fechados, inchados, vi o momento que um dos rapazes arrastou o velhinho do apartamento 305 para o meio da rua, “Véio fiodaputa!”.

 

 

 

__________________________________________________________________________

  

 

Congresso de lágrimas  (por Máximo Heleno) 

 

 

 

 

Cena 1
 
Terça-feira. O corredor está lotado de gente. Velhos em mesas rolantes, em macas... Gemidos. Lençóis sujos. Sujeira. Hospital Antônio Pedro. Uma dondoca de branco desfila indiferente. Serviço de saúde pública, médica residente e minha mãe, internada na tarde do último domingo.
 
O velho uruguaio arrasado, mal vestido, barba por fazer. Um peso nas costas. Ele me vê e levanta. Tá tentando ser uma estátua, mas foram 30 anos de convivência. Pergunta como eu estou. Estátua. Prático. Seco e sujo como um corredor de hospital.
 
Passamos por corredores entulhados. Não há água. Não há água e está quente. Um lugar perfeito para ratos e micróbrios. A gente se encaminha até uma sala. Um homem de jaleco branco sobre um jeans nos atende. O velho me aponta “es el hijo de ella”. O homem me olha com indiferença – não se sente seguro, faz parte de uma engrenagem podre e, o pior, sabe disso. E o pior, vive disso.
 
No atestado de óbito, está escrito que não houve tempo para o diagnóstico.
 
 
Cena 2
 
Ontem, não teve aula. Morreu o chefe do tráfico da região. Eu não tô nem aí. É bom que eu descanso. Seria bom se matassem um marginal desses por dia.
 
Coloco o jaleco e vou pra sala. Para compensar uma questão burocrática, mandam que entremos às 18:30. Não há um aluno só na sala. Abro o livro. Preciso estudar pra sair daqui. 19:15, já tenho 9 alunos na sala. A lista de chamada tem mais de 40 nomes. Vamos fazer a chamada e começar.
 
João. Presente. João. Presente. João. Presente. João. Presente...
 
Converso com os alunos sobre a responsabilidade de cada um. Sobre a farsa na qual são espectadores, atores e diretores. Vão terminar os estudos sem saber nada. Não conseguirão fazer qualquer tipo de prova para qualquer função. Eu preparo a massa que servirá ao conforto do jaleco branco.
 
Uma aluna me interrompe. Ela sabe de tudo isso, só nunca tinha ouvido assim. Seco. Sujo.
 
– Tudo bem, professor. Obrigado, mas vamos fazer a prova em grupo. Nós só queremos o diploma.
 
 
Cena 3
 
Antônio foi assaltado. Ele é um bom homem, religioso – mole e preguiçoso. Escorado dentro de um sistema confortável e medíocre. Pobre, mas resolvido. Pequeno, mas resolvido. A fé é um carnaval num comprimido de placebo.
 
Todo dia, eu, que sou ateu, rezo pra que Deus volte e termine com isso.
 
Antônio foi à delegacia restaurada, bonita, limpa, computadorizada. Tem filmadoras. Antônio pediu pra fazer o boletim de ocorrência do furto dos documentos. O policial civil olhou pra e pediu um minuto. Entrou numa sala. Tirou o casaco branco do uniforme interno e saiu. Virou para o Antônio e pediu que ele o acompanhasse.
 
Atravessaram a rua. Entraram no bar em frente. O policial cumprimentou o dono do estabelecimento. Levou Antônio para uma mesa, fora do ângulo de visão da rua. Sentou e, seco, sujo, com Antônio ao pé, falou:
 
– Aí, deixa 20 reais.
 
 
Cena 4
 
Fulano saiu da reunião no Centro da cidade. Fulano é legal, trabalha pra melhorar a vida dos outros e melhorar a sua, claro! Tem seus pecados, mas nada capital. Fulano desceu do prédio e pegou a famosa rua do Ouvidor.
 
Os assaltantes se aproximaram. Fulano é de origem simples. Não podia deixar barato. Houve briga. Levou um tiro. Fulano não tem dinheiro. Os assaltantes levam o tênis e o casaco. Deixam Fulano batendo no chão.
 
O carro da polícia passa pelo corpo quente de Fulano logo em seguida. São segundos. Abordam os assaltantes. Capitão desce de arma em punho. Capitão pega o casaco e o tênis e os coloca no camburão. Capitão libera os assaltantes.
 
Fulano tem amigos e um deles chega, quando um outro carro da polícia já está no local do crime. Sicrano se aproxima e coloca a mão no peito de Fulano. Sicrano informa ao policial.
 
O policial olha com indiferença – não se sente seguro, faz parte de uma engrenagem podre e, o pior, sabe disso. E pior ainda, vive disso.
 
– É assim, mesmo. A pessoa morre, mas o coração continua a bater.
 
 
Cena 5
 
Paramos num bar, perto do hospital. Duas cervejas e um silêncio. A gente fala de alguma coisa sem sentido e sem possibilidades. Um enterro decente custaria dinheiro que não temos. Não temos fome. O velho vai preparar o corpo e eu fazer ligações. Um amigo de branco consegue o caixão e o cemitério.
 
O corpo está dentro do caixão de papel sobre uma mesa de concreto frio. O cemitério é nos cafundós do Judas, perdido, sem cuidado. Sujo. Morto. O velho não quer sair dali. A gente procura um bar. Duas cervejas. O enterro será amanhã. O velho vai pra casa pobre, com cheiro de fezes de cachorros e gatos. O velho vai arrumar as coisas dela.
 
Dela, só viemos o velho e eu. Meu, vieram alguns amigos.
 
É a hora. Os coveiros estão bêbados. Não há carrinho. Tem que pagar porque alguém aqui perto tem um carrinho de cemitério e aluga. Tem que falar com o dono de uma loja ali perto. O homem me olha com indiferença – não se sente seguro, faz parte de uma engrenagem podre e, o pior, sabe disso. E o pior, vive disso.
 
Um amigo paga.
 
O coveiro pergunta se não tem ninguém para levar o caixão até o carrinho. Ele diz que falta uma pessoa. Eu, o velho e um amigo seguramos. Sem remédio, o coveiro então segura na alça que sobra. O peso é enorme. Tenho medo do caixão rasgar. São menos de cinco metros até o carrinho e, de carrinho, numa corrida acelerada pelos coveiros, uns trinta até o buraco no chão.
 
Mas, o carrinho não vai até o final. A gente pega o caixão de novo e o leva entre as covas e as baratas. O caixão vai para o buraco.
 
O enterro é seco, rápido, sem fé, sem padre e sem oração. Um adeus pequeno. Melhor assim.
 
O fim é um alívio.

 

 

_________________________________________________________________________

 

 

Congresso de lágrimas  (por Toninho Moura)

 

 
 
Sebastião abre a boca do saco plástico, e Moacir joga os últimos pedaços de papel dentro dele. Terminam a limpeza do espaço entre as cadeiras da primeira fila e o palco. Sebastião olha para Moacir com perceptível ar de curiosidade, como se aferisse detalhes do seu subordinado.

– Vamos voltar ao saguão e depois fazer toda a platéia novamente. – ordena.
 
Moacir é auxiliar de Sebastião, e o segue pelo corredor que divide a platéia ao meio, subindo em direção à saída. Empurra o carrinho amarelo com o grande saco de lixo. Não se lembra de alguém ter lhe dito isso, mas sabe que deve observar Sebastião para aprender o serviço. Repara que o macacão dele está remendado nos fundilhos, um dos bolsos traseiros está descosturado, e a gola está bastante puída. “Será que demoram tanto assim para substituir?” – imagina se um dia seu macacão estaria em estado similar ao do seu chefe.

Sebastião caminha devagar e, fileira após fileira, olha atentamente para os dois lados, como uma pessoa assistindo a uma partida de tênis, procurando por algo esquecido na primeira descida que fizeram. Moacir olha para cima e estranha tantas luzes acesas, no teto e nas luminárias laterais, não iluminarem adequadamente o lugar. É um teatro antigo. As cadeiras são de madeira, com assento e encosto dobrável almofadado. O desbotado do tecido sugere que algum dia tenha sido vermelho vivo. Nunca esteve em um teatro antes. “Talvez seja assim mesmo.”, conclui. Sebastião entra na fileira K, lado par, e caminha até a penúltima poltrona, de número 38. Moacir adianta o carrinho até ficar exatamente na entrada da fileira, vê Sebastião se abaixar e, um segundo depois, retornar com um papel amassado nas mãos, parar a um metro do carrinho e o arremessar no centro do saco de lixo.
 
 
Moacir reage rápido e faz cara de entender o que Sebastião dissera. Passam pela porta e chegam ao saguão vazio. É um espaço retangular de 10x5m, com chão de madeira e pé direito alto. As paredes são forradas, até a metade, por um fino acabamento de mogno, há muito necessitado de um polimento. Acima dele, grandes janelas de vidro deixam a luz iluminar o lugar. Caminham até o canto esquerdo, onde fica a porta do teatro. Ouve-se nitidamente o eco dos passos no chão de madeira, e o “nhec-nhec” das rodas do carrinho. Sebastião tira um lenço do bolso e com ele enxuga as faces e a testa.
 
– Coloque o carrinho do lado da porta e volte para cá, trazendo um saco vazio.
 
Moacir obedece. Retorna e novamente se espanta com Sebastião, que está, com as mãos nas costas e a cabeça baixa, examinando cada metro quadrado do saguão, recolhendo cada pedacinho de papel que encontra. Quando termina, tem vários deles na palma na mão esquerda.
 
– Jogue aqui! – diz Moacir, segurando o saco plástico aberto.
 
Sebastião molda uma pequena bola. Confere se está pronta, concentra-se e arremessa. A bola cai sem tocar no aro.
 
– Vamos fazer as fileiras novamente.
 
Primeiro no lado ímpar, e depois no lado par, Sebastião passa de fileira em fileira, olhando sob as cadeiras dobradas, procurando por qualquer coisa que denuncie não ter feito um serviço perfeito. Moacir começa a achar aquilo um exagero. Tudo está limpo. Pegou os papéis com as mãos, um por um. Sebastião não deixou varrer, pois o papel é delicado e a vassoura espalha pedacinhos dele pelo ar. De repente, se dá conta de que aquele lixo era um tanto peculiar.

– O quê acontece aqui neste teatro, Sebastião, para as pessoas deixarem essa sujeira de papel?
 
– Como assim?
 
– Não tem nenhum lixo comum..., como papel de bala, salgadinho..., pipoca..., só tem esses lenços de papel. É algum tipo de culto?
 
Sebastião pede a Moacir que escolha uma cadeira e se acomode, e senta-se ao seu lado, deixando uma cadeira vazia entre os dois. Fica alguns instantes fitando o palco vazio. Depois, levanta a cabeça e olha ao redor, de zero a cento e oitenta graus, até ficar olhos nos olhos com seu subordinado, a quem deve, para sua satisfação, promover.
 
– Moacir, meu caro, você demorou menos do que eu para estranhar este lugar. Talvez pelo fato de ter sido mais atencioso aos detalhes do que eu fui.
 
O silêncio que faz a seguir evidencia a estranheza do que disse.
 
– Ter sido? – Moacir percebe o tempo verbal.
 
– Sim, meu caro, ter sido.
 
– Não entendo...
 
– Vou explicar. Olhe para você, nesse macacão amarelo e vermelho, novinho.
 
– Me parece bem adequado.
 
– Pense um pouco Moacir... Você estava vestido assim há duas horas atrás?
 
Moacir abre a boca e fica com ela aberta, seus olhos se fixam em um ponto no espaço, e sua mente passa rapidamente um filme onde, duas horas e alguns minutos atrás, ele dirige sua Mercedes Prateada a caminho da loja onde iria retirar o Rolex que se deu de presente, por ter acumulado mais um milhão de dólares a seu patrimônio pessoal. O modelo, exclusivo, tinha seu nome gravado em ouro branco no mostrador. Estava feliz. Súbito, ouviu o guincho alto de uma freada desesperada, anunciando que algo muito grande se chocaria contra ele. Depois, o que se lembra era estar ali, pegando lenços de papel com as mãos, um a um, e jogando-os no saco de lixo que Sebastião segurava.
 
Um espasmo, um arrepio, um suspiro profundo, e troca a expressão atônita por um ar de compreensão. Somente no momento da morte entendemos, afinal, o que era tudo aquilo.
 
– É um susto, não é meu caro? - Sebastião continua. - Também me assustei quando me vi aqui, vestindo este macacão, que também era novinho, escutando de outra pessoa as palavras que, finalmente, poderei falar para alguém.
 
Sebastião sabia que, como aconteceu com ele há muito tempo atrás, seu ouvinte não tinha nada para dizer.
 
– Você está aqui para me substituir Moacir. Ficará aqui, sozinho, fazendo o que te mandei e o que me viu fazer: pegar com as mãos, um a um, todos os lenços de papel jogados pelo chão, e depois vasculhar com atenção para não deixar um mísero pedacinho.
 
– É o novo responsável por manter este lugar limpo, pronto para, sessão após sessão, sediar o encontro das almas recém libertadas, que se reúnem aqui para saber que destino terão.
A cada limpeza que faz, uma nova sessão começa. Lá fora, a fila não tem fim.
 
Um assento é abaixado, e um barulho, “plá!”, ecoa.
 
– Escute!
 
Rapidamente, parecendo o som de um grande aplauso, todos os assentos vão sendo ocupados por expectadores invisíveis, até a platéia ficar lotada. Em seguida, o silêncio.
 
– Olhe Moacir..., nada acontece. Não podemos vê-los. Dois deles devem estar ao nosso lado, em pé, esperando pelos seus lugares. Vamos, venha comigo, vamos subir no palco.
Descem o corredor até o fim, e depois sobem uma pequena escada lateral, de três degraus.
Moacir está calado, consciente do que acontece. Sebastião está sorridente. Param no centro do palco, de frente para a platéia.
 
– Observe.
 
Moacir vê claramente as cadeiras da primeira fila, e percebe que, aos poucos, lenços de papel amassados aparecem do nada: deixam de ser invisíveis e, aqui e ali, caem ao chão.
 
– As “pessoas” presentes, Moacir, estão ouvindo, de alguém que está neste palco exatamente agora, um resumo do que foi a própria vida, e ficam sabendo o que acontecerá a partir daqui.
 
– Todas elas choram. Choram pelo fim do que sabiam finito. Suas lágrimas, materializadas no papel fino e delicado, são as últimas coisas que deixam neste mundo.
 
Moacir já se conforma com sua condição, mas não a compreende completamente.
 
– Diga-me, Sebastião, por que eu e você estamos aqui, diferentes de todos eles?
 
– Por não sermos tão afortunados, Moacir. Temos em comum, eu e você, o fato de vivermos absoluta e tolamente obcecados por algo, sem dar importância para tantas outras coisas necessárias ao nosso amadurecimento e a plenitude da nossa existência.
 
– Quando nossas vidas foram, subitamente, interrompidas, ainda tínhamos muito para aprender, descobrir, para amar e sofrer. Hoje eu sei que são muitos os caminhos que uma vida pode tomar, que somos insensíveis demais para enxergar os momentos decisivos, e que a oportunidade nunca se repete.
 
– Aquele que rege a harmonia do Universo me deu, muito tempo atrás, e agora passou para você, a função de Zelador deste “Teatro das Almas”, deste “Congresso de Lágrimas”, para que possamos, enquanto executamos nossa rotina infinita de limpar o lugar, pensar em tudo o que fomos e em tudo o que seríamos se tivéssemos mais humildade, mais interesse pela vida e por tudo o que Ele nos deu.
 
– Estou pronto para partir, meu caro, e passo para você a minha cruz. Será fácil ou difícil seu calvário? Fique tranqüilo, eu também não soube responder.
 
– Cuide bem de tudo, como eu cuidei. Sempre quis que, no dia em que partisse, que este lugar estivesse impecavelmente limpo, como estava quando cheguei aqui.
 
– Boa sorte meu caro. Adeus!
 
Moacir vê a imagem de Sebastião desaparecer. Logo em seguida, um lenço de papel surge suspenso no ar e cai suavemente, bem próximo aos seus pés. Abaixa-se e o pega, amassa e o coloca no saco que carrega desde o saguão. Fecha o saco com uma das mãos e coloca ambas na cintura. Em vida, sempre fora pragmático. Observa o lugar com atenção. Entende que precisa se acostumar com a luz fraca e com o silêncio absoluto. Olha para baixo e vê que o espaço entre o palco e a primeira fila está repleto de papéis, e conclui que há muito por fazer.
 
_________________________________________________________________________
 

 

 

Congresso de Lágrimas  ( por Verônica Fortunato )

 



A sensação veio subitamente, causando-me cócegas ao descer e umedecendo todo o caminho que percorria, esfriando cada centímetro que tocava.

E não era pouco.

Tão pouco era o que estava assaltando meu peito. As batidas do meu coração ultrapassavam o som ensurdecedor dos meninos do Pelourinho em noite de carnaval.

Menos ainda o subir e descer do meu dorso se contorcendo em espasmos, soluços entrecortados com o silêncio de quem quer dizer algo, mas por covardia, ou supressa não consegue.

A minha “humanidade” sendo testada. Não há outra explicação.

Mas o quanto eu poderia me considerar humana? E que raios será ser humano?

Um conjunto de sentimentos, diferenciando minhas atitudes da de outros seres? Minha completa percepção e compreensão dos sofrimentos alheios? Meus instintos de proteção em relação as outras vidas?

Enquanto minha pele se molha ao toque de cada lágrima, mais eventos se sobressaltam aos meus olhos, sensíveis, provocando o nascimento de mais e mais lágrimas. Uma verdadeira torrente de sentidos e sentimentos.

Sim. Sentidos. E sentimentos.

A cada novo evento, um novo sentido, uma nova percepção do sentido dos acontecimentos, dos odores, das cores, da temperatura, dos sons, paladar, texturas....

A cada novo sentido adquirido, uma nova reação e co-relação com minhas próprias experiências e um novo significado une-se aos demais. E eu não tenho tempo para parar e pensar. Tudo acontecendo ao mesmo tempo ou em pequenos intervalos.

Estou em transe, sentido-me submersa em um oceano de sentidos e sentimentos. Afogando... Naufragando.... Navegando....Emergindo.... Em minhas próprias lágrimas.

O Jornal Nacional termina. Desligo a televisão. Silêncio.

A velha pergunta. A mesma resposta. E nenhuma atitude.

__________________________________________________________________________

 

publicado por Interseção às 22:03

link do post | comentar | favorito
12 comentários:
De Toninho Moura a 1 de Dezembro de 2009 às 00:00
Há uma harmonia interessante no conjunto dos trabalhos. Achei gratificante participar e quero agradecer ao Máximo e a todos pelo convite.
Braços! E longa vida ao Interseção.
De Interseção a 1 de Dezembro de 2009 às 03:00
Nós é que agradecemos a sua participação e esperamos poder contar sempre com a sua amizade e incentivo. Vida longa também ao "Dicas..."
Abração!

P.S. Nesta edição ainda faltam as imagens que, por problemas técnicos, não conseguimos postar. Mas elas virão.
De Máximo Heleno a 2 de Dezembro de 2009 às 12:08
Marcelo,
parabéns pelas ilustrações. Você está me surpreendendo a cada edição. Gostei muito da bandeira e do teatro dialogando com os textos do Toninho e do Mariel.
Toninho,
eu agradeço a sua belíssima participação.
Max
De Daiana Borges a 8 de Dezembro de 2009 às 23:15
Lindo, perfeito e harmonioso o conjunto: textos e ilustrações !!! Adorei o tema congresso de lágrimas... sensacional. Parabéns!!! As ilustrações estão melhores a cada ediçao, viajo nesses desenhos.

abraços ao grupo e sucesso sempre!!!
De Interseção a 10 de Dezembro de 2009 às 15:29
Olá, Daiana!

Ficamos muito felizes não só com a sua visita, mas também pela força e por seus elogios, que só nos incentivam a seguirmos em frente. Muito obrigado!

E ainda estamos aguardando a sua participação. Quando quiser, mande seus trabalhos que serão muito bem-vindos.

Beijo grande!
Marcelo
De josilene peixoto a 13 de Dezembro de 2009 às 20:17
"Arteiros", da Interseção. Desculpem, mas também "estive" no congresso de lágrimas.
Estou com olhos marejados e o coração apertado.
Mergulhei nos textos verbais e viajei pelos textos não verbais.
Querido, Marcelo. Cada vez me encanto mais com sua expressão e traçados.
Parabéns, Interseção!! Bom Natal!!!
Beijosilene



De Interseção a 14 de Dezembro de 2009 às 20:34
Minha querida Josi!

É sempre um prazer enorme receber a sua visita e os seus comentários. No congresso de lágrimas estamos todos nós, sempre. Todos nós, os sensíveis, os que não se cansam de acreditar no bem e num mundo melhor. As lágrimas tristes sempre vêm, mas também sempre secam. E as lágrimas alegres... bem, essas a gente deixa cair à vontade. rs.

Grande beijo, minha amiga!
E ainda nos vemos antes do ano findar.
Marcelo
De Verônica a 14 de Dezembro de 2009 às 16:46
Congresso de Lágrimas

A sensação veio subitamente, causando-me cócegas ao descer e umedecendo todo o caminho que percorria, esfriando cada centímetro que tocava.
E não era pouco.
Tão pouco era o que estava assaltando meu peito. As batidas do meu coração ultrapassavam o som ensurdecedor dos meninos do Pelourinho em noite de carnaval.
Menos ainda o subir e descer do meu dorso se contorcendo em espasmos, soluços entrecortados com o silêncio de quem quer dizer algo, mas por covardia, ou supressa não consegue.
A minha “humanidade” sendo testada. Não há outra explicação.
Mas o quanto eu poderia me considerar humana? E que raios será ser humano?
Um conjunto de sentimentos, diferenciando minhas atitudes da de outros seres? Minha completa percepção e compreensão dos sofrimentos alheios? Meus instintos de proteção em relação as outras vidas?
Enquanto minha pele se molha ao toque de cada lágrima, mais eventos se sobressaltam aos meus olhos, sensíveis, provocando o nascimento de mais e mais lágrimas. Uma verdadeira torrente de sentidos e sentimentos.
Sim. Sentidos. E sentimentos.
A cada novo evento, um novo sentido, uma nova percepção do sentido dos acontecimentos, dos odores, das cores, da temperatura, dos sons, paladar, texturas....
A cada novo sentido adquirido, uma nova reação e co-relação com minhas próprias experiências e um novo significado une-se aos demais.
E eu não tenho tempo para parar e pensar. Tudo acontecendo ao mesmo tempo ou em pequenos intervalos.
Estou em transe, sentido-me submersa em um oceano de sentidos e sentimentos. Afogando... Naufragando.... Navegando....Emergindo.... Em minhas próprias lágrimas.
O Jornal Nacional termina. Desligo a televisão. Silêncio.
A velha pergunta. A mesma resposta. E nenhuma atitude.

Verônica Fortunato - 14/12/09
De Verônica a 14 de Dezembro de 2009 às 16:52
Desculpe a invasão... e até mesmo a prepotência, mas....não pude resistir.
Achei divino cada ponto de vista, cada caminho tomado.
Parabéns pelo trabalho!

Verônica Fortunato.

P.S.: Prometo me segurar mais e não me intrometer.
De Interseção a 14 de Dezembro de 2009 às 20:18
Verônica, minha cara Verônica!

É exatamente deste modo que queremos ser "invadidos". É exatamente assim que deve ser: o texto se impõe por que é vivo, e necessita sair pra ganhar o mundo, nos blogs, nos livros, nas mentes... O seu texto ( belíssimo! ) deveria estar logo acima junto com os nossos e acompanhada de uma bela imagem, para ser compartilhado com todos.

Só prometa uma coisa: não se segure mais, e nos envie outros textos. Vc já faz parte do clube.

Grande abraço!
Marcelo
De Verônica a 15 de Dezembro de 2009 às 12:36
Fique à vontade para compartilhá-lo, aliás, ficarei honrada!
E eu prometo!
Prometo não me segurar, rsrsrsr

Abraço em todos.
Até mais.
De Toninho Moura a 27 de Dezembro de 2009 às 14:00
O Dicas Sobre Nada deseja a todos um 2010 ainda mais belo e criativo. Braços!

Comentar post

visitantes

Contador de visitas

Quem somos

a gênese(1)

luiz frança(1)

marcelo souza(1)

máximo heleno(1)

todas as tags

Edições anteriores

Dezembro 2011

Setembro 2011

Julho 2011

Junho 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009