Quinta-feira, 27 de Maio de 2010

...

9ª edição - ano II - Maio / 2010

 

Olá, amigos! Bem-vindos mais uma vez!

 

Demoramos um pouco, mas aqui estamos novamente, com todo o gás, produzindo a arte, a literatura e as reflexões cotidianas. que podem surgir da realidade vivida, sonhada, ou simplesmente inventada. Então, nossa última invenção foi, a partir de uma experiência efêmera registrada numa bela fotografia, juntarmos letras, sílabas, palavras, frases... e com elas traduzir nossas impressões a respeito dos encontros e desencontros da vida.

 

Grande abraço a todos e boa leitura!

 

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"Íris"

 

 

 

 

Senti a face queimar e olhei para fora:
vi a lente focada em mim.
Estudava a matéria da aula,
mas parece que contava moedas, assim.

Entre as sombras nas janelas
- no passar de tempo de um fato -,
a luz uniu as paralelas
- bateu meu retrato -.

Olhamo-nos como amantes:
cúmplices por um segundo.
Depois, para sempre, distantes:
separados pelo tamanho do mundo.

Na memória tenho, nítida,
a imagem que está no papel.
Pintada usando a luz como tinta,
e o tempo como pincel.

Ela lembra o sentimento
do instante que nos uniu.
Eu relembro o momento
no qual a menina te viu.

 

[    Toninho Moura    ]

 

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A menina da lembrança

 

 

 

 

Eu estava cansado. Tinha sido um dia difícil. Quatro horas de “condução – duas pra ir, duas pra voltar”. O ônibus cheio na ida e na volta. O engarrafamento. As tragédias pessoais invadindo meus trágicos ouvidos desinteressados. A avenida Brasil eternamente feia. O horário de verão prolongando o calor. O motorista dirigindo como um louco. E eu usando minha cara de mau número 5.

 

O ônibus diminuiu a velocidade perto do Mendanha. O seu emparelhou. Em pé na porta junto ao motorista louco, eu te vi. E você me viu, desconsiderou a minha cara de mau número 5 e sorriu. Seu sorriso entrou como uma palavra mágica no meu dia. Como uma bela flor drummondiana rompendo o tédio do mundo, rompendo as horas iguais. Seu sorriso foi como uma boa nova.

 

Eu queria mandar parar o ônibus ou  seguir o seu. Pensei em descer e sair correndo. Quantas histórias eu construí com você – que me salvou sem me saber! Muito depressa seu ônibus foi embora e eu fiquei com o seu sorriso na minha boca. E nunca mais te esqueci...

 

Era você.

 

[    Máximo Heleno    ]

 

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Irene

 

 

 

Quando vi Irene pela primeira vez, ela não me sorriu. Na verdade ela nem me viu. Apenas eu a vi ali, imóvel como uma estátua grega, diante de meus olhos atônitos.

 

Tentei disfarçar minha admiração, mas não consegui. Tropecei em qualquer coisa, esbarrei em alguém, engasguei, tive medo, suei frio... Enquanto ela, ignorando totalmente a minha insignificante existência, seguia em sua história como a levitar. Por onde eu a observava, ela parecia ser duas. Uma como reflexo da outra, como uma dupla vida. E a melancolia de seus olhos me enchia o coração de carinho. Como eu gostaria de estar ali a protegê-la, a guardá-la em meus braços, e a beijar-lhe docemente a boca! Mas uma de suas imagens se foi, e a outra perdeu-se nos letreiros que subiam na tela.

 

Mais tarde, em outra ocasião, Irene passou por mim novamente. O mesmo sorriso encantador, a mesma presença etérea, a mesma figura inebriante. Arrebatou-me num rubro pesar, numa desgastada fraternidade que fôra esquecida pelos homens de todos os tempos e que, agora, no meu tempo, eu também a esqueci. E apenas ela, Irene, poderia me redimir e me levar de volta aos meus ideais revolucionários. Tornar-me de novo alguém que utopicamente sonha com um mundo mais amoroso. Porém, mais uma vez ela foge do meu alcance, e congela-se num frio e imóvel outdoor.

 

Na última vez que a vi, pensei estar ela ainda mais linda do que nunca. Mais luminosa, casta e envolta em brumas... Caminhava por uma rua de paralelepípedos e carregava, sem saber, em seus ombros, todas as minhas vontades de amá-la. Um outro, que não eu, estaria a lhe falar, a lhe importunar, a tirar-lhe de seu transe místico. Eu jamais poderia estar lá onde ela se encontrava para salvá-la e, aflito, torcia para que ela não cedesse às artimanhas daquele francês infame, daquele patife sem nobreza de espírito. Pois ela, que sempre fôra puramente o meu sonho materializado em mulher, jamais poderia pertencer a mais ninguém a não ser eu, o seu pobre miserável amante sonhador. Porém ela se foi mais uma vez. Por entre a fumaça enevoada ela embarcou solene no trem tempo, do espaço e dos sentimentos não vividos. Esse trem a levaria embora como a uma santa ao paraíso. E eu nunca mais a veria novamente. Porém, antes de sua partida, por um breve instante, após meus muitos olhares solitários, Irene voltou-se para mim e me olhou docemente. Um olhar de compreensão, de que tudo fôra dito, sentido e pensado e que, agora, sem retorno, ela partiria para além das nuvens.

 

[    Marcelo Souza    ]

 

 

 

publicado por Interseção às 07:21

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2 comentários:
De Máximo a 28 de Maio de 2010 às 12:56
E porque vocês não se tornaram reais, se tornaram eternas.

Ficou muito bom, meus amigos. Um abraço. Max
De Toninho Moura a 29 de Maio de 2010 às 01:35
A menina gravada na retina.
Íris dos olhos que veêm.
Entrada para o coração que pulsa,
e sente.


Longa vida ao Interseção!
Braços!

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