Sábado, 24 de Setembro de 2011

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22ª edição - ano III - Setembro de 2011

 

Olá, amigos!

 

Apesar de uma certa demora, aqui estamos mais uma vez compartilhando

com vocês o nosso teimoso ofício de criação artística e literária.

Nesta edição, que é comemorativa (nosso blog completou 2 anos em Agosto),

contamos também com a participação especial da poetisa Verônica Fortunato, que tem

acompanhado nossa trajetória e, sempre que pode, deixa sua valiosa colaboração.

 

Um forte abraço a todos!

 

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Babel, ou “O que passa pela cabeça dos nossos alunos”.

(Uma tentativa de poesia moderna nº 7)

 

 

bom aí meu nome é juliana ruth raquel tiagho maria vitória anderson cleber kethelin jheniffer webert eu tenho treze onze treze doze quinze doze quatorze treze treze doze aí meu sonho é ser professora jogador de futebol cantora de inglês jogadora de futebol modelo fuzileiro aeromoça lutador bombeiro pm eu vi uma coisa ruim sou nojenta só falo a primeira vez também sou uma menina como todo mundo eu talvez seja advoga empresária ou estilista de moda etc o que eu mais gosto é beijar na boca eu não posso sonhar odeio pessoa vausa as minha letras são oriveu já sou mulher me acho muito feio eu sou um garoto que fala com todos mundo e eu quando tinha 2 4 anos gostava de um jogo que coista de brincar com todos mundo eu não gosto da minha mãe porque quero orgulhar meu pai a gente joga bola tenho um tio que é bombeiro eu se formar eu já bebo eu quero que deus me ajude a conseguir passar de série que comete vários erros e apesar de cometer vários erros gosto dos meus cachorros também tenho muitos defeitos e continuar a frente enfrentando tudo que enfrentar eu vou seguir com fé que vou chegar lar porque seu eu não tiver fé na terceira dou na cara eu nunca vou ter certeza que eu vou conseguir chegar lá mas pena que um dia a minha avó morreu eu minha irmã minha outra irmã hoje meu dia foi + ou - eu se arrumei no futuro uma filha muito inteligente e esforçada no que faz mas quando ela virou a encosta agente vouto derrepente onde tem uma manguera eu vou conseguir meu sonho etc

 

[  Max Heleno  ]

 

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A Empadeira

 

 

Achou-se ridículo naquelas roupas: tênis, bermuda, camiseta, boné... Elas nada tinham a ver com sua personalidade. Havia tempos que o Dr. Teotônio não tirava o terno, senão para usar o pijama. Nem nos finais de semana ele usava algo informal. Sempre de calça e camisa social. Mas agora, por recomendações médicas, ele precisava caminhar pelo menos quarenta minutos por dia, o que seria inviável com suas roupas habituais. Isso o deixava de mal-humor, pois nunca gostou de fazer exercícios. Mas não havia como contestar, sua saúde se encontrava bastante frágil após o infarto.

 

O sol da manhã queimava-lhe o rosto e fazia arderem seus ombros de cera. A calçada irregular tirava-lhe o equilíbrio e os sons da rua pareciam disputar sua atenção a cada instante. Achou tudo muito confuso, pois não costumava andar a pé pelas ruas do seu bairro. Sempre ia de carro para o escritório e só voltava à noite. Mesmo antes do infarto ele pouco saía. Preferia se entreter com um livro qualquer, esquecendo-se de que havia vida pulsante lá fora. Tentava ignorar a alegria dos dias ensolarados, pois não tinha com quem compartilhá-los. Não que não tenha buscado isso, mas seu temperamento difícil e a falta de sorte em alguns relacionamentos inviabilizaram qualquer forma de romance mais duradouro. Porém, um dia, se acorda numa manhã qualquer, e já não se é mais jovem. A vida vem lhe cobrar suas contas e, simplesmente, não se tem com o que pagar. Nem mesmo onde pegar emprestado. O que fazer então? Caminhar, caminhar, caminhar. Pelo menos quarenta minutos por dia.

 

Dr. Teotônio parou numa esquina e esperou o sinal fechar. Do outro lado da rua havia uma escola e, na calçada, várias carrocinhas: uma de pipoca, uma de doces, uma de empadas... “As autoridades nada fazem para coibir esse comércio sem higiene. Além da desordem urbana que produzem”. Resmungou ele. Ao chegar do outro lado da rua, de relance, seu olhar cruzou com outro que refletiu um brilho, como um espelho contra o sol. Desorientou-se um pouco, esbarrou em alguém, pediu desculpas automaticamente e voltou-se para aqueles olhos. Eram de uma mulher bonita, nem jovem, nem velha, cabelos bem cuidados, pele limpa, apenas umas poucas sardas e rugas inevitáveis. Ela não havia notado os olhares do Dr. Teotônio, pois estava distraída tirando suas empadinhas de um pequeno forno da parte lateral de uma carrocinha. Sim, ela vendia empadas em frente à escola. Sim, ela era mais uma daquelas pessoas que, segundo ele, não deveriam estar ali.

 

Dr. Teotônio continuou o seu trajeto, mas agora estava inquieto. Algo dentro dele parecia diferente. “Aquela mulher... quem é aquela mulher?” Foi até o fim do percurso e decidiu que, na volta, tiraria aquela impressão a limpo. E lá estava ela ainda, completamente alheia aos olhares do Dr. Teotônio. Colocava as empadinhas no forno e conversava com algumas mulheres que passavam por ali para deixarem seus filhos na escola. Uma delas o Dr. Teotônio reconheceu, era uma vizinha sua, cuja personalidade ele já havia julgado antes: “Um tipo de gente um tanto barulhenta e com trejeitos de fofoqueira”. Alguém com quem ele jamais trocaria mais do que um “bom dia” ou “boa tarde”. Ele continuou andando até passar por elas e olhou de lado, disfarçando. Realmente aquela empadeira possuía algo que ele não sabia definir. Uma certa dignidade, uma nobreza, um charme... Algo que mexia profundamente com ele e ressuscitava-lhe emoções consideradas perdidas.

 

No dia seguinte, Dr. Teotônio preocupou-se mais com sua aparência. Fez a barba, escolheu uma camiseta nova. Não sabia exatamente o que sentia, mas sabia que queria, mais uma vez, olhar para aquela mulher. Pensou em comprar uma empadinha para iniciar uma conversa. Mas sobre o que conversariam? Sobre o recheio? O que ele entendia sobre recheios de empada? Seu vasto conhecimento sobre as Leis e a Justiça era inversamente proporcional à sabedoria das pequenas coisas domésticas. Pois sempre contou com a ajuda de D. Vanda que, antes de falecer, vinha duas vezes por semana à sua casa para fazer a faxina, lavar suas roupas e preparar sua comida. Tentaria então uma conversa sobre o tempo, ou talvez sobre algum acontecimento recente que tenha comovido a opinião pública, como as últimas irregularidades do governo, por exemplo. Mas ela também se encontrava em situação irregular: era uma ambulante “que atrapalha o trânsito das pessoas e não tem licença da vigilância sanitária”. Como ele poderia lidar com essa situação? O velho embate entre razão e emoção desencadeava-se no safenado coração do Dr. Teotônio.

 

Pensou em fingir estar perdido para pedir uma informação a ela. Mas pensou melhor e viu que poderia ser descoberto pois, provavelmente, ela já o teria visto por ali. E, além do mais, a sempre presente vizinha fofoqueira o denunciaria, além de espalhar para todo o prédio as suas intenções para com a empadeira da esquina. Dia após dia, antes de sair de casa para sua caminhada, Dr. Teotônio pensava num jeito de abordá-la do modo mais adequado possível. Mas nunca ficava inteiramente satisfeito. Não conseguia chegar a uma forma que fosse, ao mesmo tempo coerente, convincente e casual. E enquanto não se decidia, limitava-se a apenas olhar com doçura e desejo para aquela linda senhora.

 

Alguns meses se passaram e, um dia, Dr. Teotônio saiu para sua caminhada diária e a bela empadeira não estava lá como de costume. No dia seguinte também não, o que o intrigou muito. Pensou que ela poderia estar doente, ou talvez mudado de ponto. Teve medo de não mais reencontrá-la e perder definitivamente sua chance. Decidiu então que logo que ela reaparecesse diria a ela qualquer coisa que lhe viesse à cabeça. Ele já não via mais graça em sair de casa para caminhar, sem passar por ela e ficar imaginando coisas românticas que poderiam fazer juntos. Mas a cada dia uma nova decepção ao ver aquele pedaço de calçada vazio.

 

Numa manhã, a caminho de uma consulta ao seu cardiologista, Dr. Teotônio encontrou com a tal vizinha fofoqueira no elevador. Pensou em perguntar-lhe sobre a desaparecida vendedora de empadas. Mas antes, elaborou uma história de modo a não entregar suas intenções.

 

- Bom dia! Estou para receber uns amigos em casa e gostaria de encomendar uns salgadinhos. A senhora, por acaso, sabe onde posso comprá-los aqui no bairro?

 

- Ah sim. A dois quarteirões daqui tem uma confeitaria que aceita encomendas.

 

Já perdendo todo o cuidado, vendo que a mulher não o respondera da forma esperada, interrogou:

 

- Próximo à escola municipal não tem uma senhora que vende empadinhas?

 

- Tinha sim. Mas eu nunca mais a vi por ali.

 

Ele pensou em perguntar algo mais quando, de repente, a porta do elevador se abriu.

 

- Deixa eu ir andando porque ainda tenho que ir ao mercado fazer compras para o almoço. Tchau! Disse a mulher, saindo apressada.

 

Dr. Teotônio então sentiu uma pressão forte no peito, e sabia exatamente o que era. Mas decidiu que não contaria nada para o seu médico.

 

[  Marcelo Souza  ]

 

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No leito do cão sem plumas

 

 

Galo que recolhe a noite

Espesso, o cão implume,

Ora à sua Espanha

Ora, no seu próprio gume.

 

Sevilhamente recorda

Das tábuas de Pernambuco

Das facas ventos que cortam

A pele o dia o assunto

 

A não lhe reter a cama

A não lhe reter o coma

À sua cova mais larga                                              

Corta a Severina cana.

 

[  Luiz França  ]

 

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Tempo

 

 

Tempo corre
Corre corre
Corre tempo
Sem parar
Faça a volta
Volta ao mundo
Nunca pare
De andar

 

Cada passo
Passo passo
Um e outro
Outro e um
Sem descanso
Nem demora
Ir nem vir
De canto algum


[  Verônica Fortunato  ]

 

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publicado por Interseção às 05:35

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9 comentários:
De Máximo a 25 de Setembro de 2011 às 19:28
Marcelo, o desenho ficou lindo. Em todos os sentidos. Quero fazer um quadro dele para colocá-lo aqui em casa. Como fazemos?

Gostei do conto.

Verôniquinha, que bom ter você com a gente!! E o tempo-mundo que passo, que passa?? Muito bom.

Abraços.
De Interseção a 26 de Setembro de 2011 às 16:28
Valeu,meu irmão!
Obrigado pela força de sempre.
Como já falamos, vou te enviar a imagem.
Abração!
De Verônica a 10 de Outubro de 2011 às 13:25
Obrigada Max. Beijos
De Josilene Peixoto a 26 de Setembro de 2011 às 00:36
Parabéns, "arteiros"! Dois aninhos! Que bacana!

"1+1 é sempre mais que 2". Não é?

Que bela participação da Verônica. Que ela encontre tempo para mais.

Vamos ajudar ao Dr. Teotônio que vive em cada um de nós!?
De Interseção a 26 de Setembro de 2011 às 16:32
Josi, minha querida amiga!

É sempre um prazer enorme ler os seus comentários. Nos sentimos até como artistas de verdade. rs.

Sim, 1 + 1 é sempre mais que 2. E a participação de amigos, como você, vem somar ainda mais no nosso trabalho.

Um abraço apertado.
Marcelo
De Verônica a 10 de Outubro de 2011 às 13:24
Obrigada Josi ! Me esforçarei para conseguir mais tempo, pode deiixar! rsrrsr Beijos
De Glaucia a 27 de Setembro de 2011 às 02:07
Hoje os aplausos vão para meu querido Marcelo, Dr Teotônio, tanto pelo desenho como pelo texto da "A Empadeira". Quem sabe, faz e com excelência. Mais uma vez, parabéns! Bjs, Glau.
De Toninho Moura a 26 de Outubro de 2011 às 02:46
Caraca! Uma das melhores publicações! A harmonia das imagens com o texto está encantadora. Parabéns.


Em tempo, depois de "Brincando de criar planetas", veio "O Dom da Criação". Passem lá.

Braços!
De Interseção a 1 de Novembro de 2011 às 14:36
Fala, Toninho!

Desculpe pela demora em te responder.
Como sempre, ficamos muito felizes com seus comentários e participação sempre generosos.

Temos tido pouco tempo para dedicar ao blog. Por isso ele anda um tanto atrasado em suas atualizações. Mas em breve estaremos preparando uma edição especial de fim de ano e, com a participação ilustre dos amigos.

Um forte abraço!
Marcelo

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