Segunda-feira, 25 de Julho de 2011

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21ª edição - ano III - Julho de 2011

 

Olá, amigos!

 

Mais uma vez queremos compartilhar com vocês

os trabalhos do nosso blog.

Como sempre, sintam-se à vontade para visitá-lo

e participar com seus comentários.

 

Um forte abraço!

 

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Dançando Quadrilha

 

 

Eu tinha uns cinco ou seis anos, não sei. Bem provável que fosse junho ou julho, pois eu vestia uma típica roupa de caipira. Na foto, amagentada pelo tempo, eu dançava quadrilha com uma menininha linda, mais ou menos da minha idade. Meu Deus! Eu dançava! E eu nem me lembro disso! Estranhamente uma antiga fotografia encontrada entre coisas empoeiradas, me mostra uma parte da minha vida que eu nem mesmo sabia que existia.

 

Eu parecia um daqueles bandidos mexicanos dos filmes de faroeste, só que em miniatura. A minha pequena parceira parecia uma indiazinha e sorria meio sem graça, deixando dúvidas sobre sua alegria contida ou sobre seu desconforto mal disfarçado. Mas qual seria o seu nome? Onde ela morava? Tinha irmãos? Nada sei sobre ela. Apenas que, num instante breve de sua vida, esteve a dançar comigo numa festa junina.

 

Será que ela, onde quer que esteja agora, se lembra daquele momento? Ou ele desapareceu de sua memória assim como da minha? Por onde ela deve andar hoje em dia? Terá se casado? Terá tido filhos? Será que é médica, advogada, professora, bancária, bandida? Ou será talvez que tenha morrido jovem, antes mesmo das pequenas descobertas e decepções da adolescência? Ou terá ainda enlouquecido com todos os delírios da escuridão da mente?

 

Talvez já tenhamos nos cruzado pela rua e, traídos pelo esquecimento, nem sequer nos olhamos. Será que mora por aqui por perto? Quem sabe tenha se mudado para o Japão ou para a Austrália? Quem poderia afirmar que ela talvez não seja uma vizinha minha, a quem pouco dirijo umas palavras de bom dia ou boa noite?

 

Minha pequena companheira de fotografia... talvez eu nunca venha a descobrir nada a seu respeito. Talvez continuemos assim: dois estranhos com um fragmento de vida em comum.

 

Daquele pequeno casalzinho sei apenas de mim. Não me tornei médico, nem advogado, nem bandido, mas professor, artista talvez. Ao longo da vida morri muitas vezes, em algumas sobrevivi, e noutras ainda enlouqueci. Mas por enquanto, enquanto permitem, e não me vestem um terno de madeira ou uma camisa-de-força, vou seguindo serenamente o meu caminho, escrevendo, escrevendo, escrevendo...

 

[  Marcelo Souza  ]

 

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Contos para Luíza dormir

 

 

Uma vez, há muito tempo, uma família pobre achou um velho gênio que lhe concedeu o milagre, de todo dia de manhã, ter a lareira de sua casa cheia de ouro.

 

O gênio, contudo, disse que para que a família não tivesse todo o ouro transformado em lama – e tudo o que dele tivesse surgido –, não poderia ter nenhuma sobra do ouro na manhã do outro dia.

 

Então, no meio daquela comunidade pobre, começou a surgir uma casa riquíssima. Todos os dias, a mulher e o marido saiam com os filhos para transformar o ouro em dinheiro e assim comprar tudo do bom e do melhor. Compraram comida, comida, um carro, dois carros, três carros. Compraram a casa do lado, a do outro lado, a de frente. Comprar uma televisão para a sala, depois para os quartos – que aumentaram em número -, depois colocaram televisões na cozinha, no banheiro. Até no quintal, onde ficavam os cães de raça, colocaram televisões. Cada quarto tinha um quarto só de roupa.

 

Cada desejo era satisfeito dez vezes.

 

Acontece que os meses passaram e a família já não tinha mais desejos a realizar. Todos os dias, o marido e a mulher sofriam horrores com medo da advertência do gênio. Inventaram mil formas de não perder tudo. Compraram mais casas, mais terrenos, perderam a conta de tudo que tinham.

 

Mas, um dia, a lareira amanheceu com metade do ouro e a família viu tudo se transformando em lama.

 

[  Max Heleno  ]

 

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Poema

 

 

A vida em geral prossegue

Desinteressada do mito.

Ainda que sem a forma nítida

De uma pedra, uma comarca.

 

A vida é como um poço sem posse.

A rodeá-lo, cair?

Como dividi-la: um passo.

O tempo invisível dos vinte anos

O tempo bem pesável dos trinta.

 

O quê escapa deste grão de corpo?

Um reflexo, um cotovelo.

Escapar da gaiola: pássaro operário.

E ser assim também, indiferente.

Porquê a vida acontece: fora e irredutível.

 

Desinteressada de ti.

 

[  Luiz França  ]

 

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publicado por Interseção às 22:50

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